nesta cidade e logo abaixo de teus olhos (2007)
versão de poema-em-música realizada com annita costa malufe
para voz que lê, piano e processamento via max/msp



nesta cidade e logo abaixo de teus olhos

primeira leitura
A questão seria então: como essa poesia consegue criar,justamente com palavras, e através das palavras, estasensação de que "não ouvimos muito bem aspalavras", ou de que "ouvimos apenas a musicalidade das frases, asentonações, mas o significado nos escapa"? Porque esteseria o grande jogo desta poesia, jogo que torna possível queaqui se passe algo que chamaríamos de "poema": o tornarsensível a escuta de vozes, a materialidade sonora demúltiplas vozes, na superfície aparentemente "silenciosa"do papel.

Porque facilmente fazemos isto com um gravador: podemos gravardiferentes vozes, em diferentes contextos e depois sobrepor estasvozes, colocá-las falando juntas e se misturando. Como efeito,temos fluxos de entonações, inflexões, diferentesritmos e tonalidades de voz – e no meio deste burburinho àsvezes ouvimos uma frase, pegamos uma palavra ou outra, e temos comoresultado uma espécie de música vocal, de músicade falas. Mas fazer isto com um gravador é muito diferente dealcançar este efeito no próprio poema, fazer com quesaltem vozes das palavras silenciosas que são as palavrasescritas.

Trata-se de fazer do poema um lugar de escuta de vozes, lugar que traza expressividade da voz que fala. É como se ocorresse umainvasão da vocalidade: o fluxo da voz que fala de repente invadeo poema. E o poema fica soando como se fosse uma voz falando, como sefosse uma corrente de entonações,modulações, modos de dizer... ele cria um fluxocontínuo de vozes, cria uma ciranda cantada por vozes falando,por vozes que criam um lugar, um território de vozes. E o poemavira muito mais isso de uma corrente sintática, um fluxocontínuo de fala, de dizeres, do que propriamente um lugar de secolher significados, mensagens ou histórias. E o poema se tornauma voz que se impõe com tamanha força que dissolve alinguagem, que faz a linguagem ser carregada por suas ondas sonoras,pela concretude destas falas que se cruzam.

E depois se trata de fazer o caminho inverso. E imaginar como seriaouvir estas palavras silenciosas que são as palavras escritas.Imaginar o que aconteceria se aumentássemos o volume desta voz,se então pudéssemos ouvir as linhas mudas do texto sendopercorridas em nossa leitura. Como tornar estas linhas audíveis?É todo um esforço para que se ouçam os olhos quepercorrem as linhas do poema, para que o percurso dos olhos pelo poemaganhe uma espécie de audibilidade, de som, de vozaudível. Talvez o que se crie, a partir daí, seja algocomo uma música para voz lida, música para a voz que sefala e se ouve todos os dias. Música que se cria a partir dasonoridade daquela voz solitária que lê para si mesma.Não uma música para a voz que canta ou interpreta, masantes, uma música a partir do som da leitura em voz baixa,buscando trazer a neutralidade da voz de quem lê para si mesmo,aquele som da voz que lê em silêncio.